Com a perspectiva cada vez mais clara de um El Niño de intensidade recorde, cientistas que estudam o fenômeno têm recebido uma enxurrada de perguntas da imprensa e do público. Meteorologistas e climatologistas esclareceram seis pontos que costumam gerar confusão.
O primeiro é que cada El Niño é distinto. Nem todo evento traz os mesmos impactos: o super El Niño de 2015-2016, por exemplo, não causou chuvas excessivas na Califórnia, apesar de as previsões, baseadas em episódios anteriores, indicarem o contrário. O fenômeno interage com outras influências, como o vórtice polar e ciclos oceânicos e atmosféricos. Para o pesquisador Michael McPhaden, não existem dois exatamente iguais, e há um enorme caos no sistema climático.
O El Niño também pode trazer benefícios a algumas áreas. A temporada de furacões no Atlântico tem sido excepcionalmente tranquila neste ano, com apenas um furacão formado até agora, porque o fenômeno gera ventos fortes na alta atmosfera que dissipam tempestades em formação. Já no Pacífico oriental e central, a atividade de furacões foi intensa, com três tempestades atingindo o Havaí em uma só temporada.
Outro ponto são as ondas de Kelvin, que transportam grandes quantidades de calor do Pacífico ocidental para o central e o oriental, principalmente abaixo da superfície. Segundo Dillon Amaya, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, uma onda de Kelvin não é um tsunami nem uma parede de água. Ao chegar à costa, ela pode elevar o nível do mar em 15 a 30 centímetros, de forma lenta e ampla, o que deixa o litoral mais vulnerável a inundações em marés altas e tempestades.
Os cientistas também ressaltam que o El Niño é diferente das mudanças climáticas causadas pelo homem. A relação entre os dois é tema de pesquisa ativa: um estudo recente aponta episódios mais intensos por causa do aquecimento, mas a descoberta ainda precisa ser replicada. Como o evento ocorre com oceanos já em temperaturas recordes, é muito provável que 2026 e, principalmente, 2027 estabeleçam recordes como os anos mais quentes já registrados. O El Niño ocorre naturalmente a cada três a sete anos, e só uma minoria se torna forte o bastante para ser chamada de super El Niño.
Há ainda a questão dos dados. A NOAA, agência oceânica e atmosférica dos EUA, dá mais peso a dados semanais e mensais do que aos diários, devido à grande variação diária das temperaturas do Pacífico. Pelos cálculos baseados no novo Índice Oceânico Niño Relativo, o fenômeno caminha para um recorde de intensidade em novembro ou dezembro.
Por fim, o El Niño influencia tempestades, mas não é uma tempestade. Não é possível prever hora e local exatos de seus efeitos: trata-se de um fenômeno de longa duração que aumenta a probabilidade de eventos climáticos extremos em determinadas áreas.
Foto: Reprodução/Imagem ilustrativa de um Super El Niño • Nasa.






