O celular de Daniel Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos em 17 de novembro de 2025, guarda 151 perguntas feitas ao ChatGPT entre 19 de maio e 16 de novembro daquele ano. As consultas, reveladas pela revista Piauí, tratam da crise do Banco Master, do Banco Central, de saúde, viagens, reputação e da possibilidade de prisão de banqueiros.
A primeira pergunta foi feita às 23h57 de 19 de maio, em inglês, sobre como retirar um anel inteligente preso no carregador. Nos dias seguintes, o banqueiro buscou orientações médicas: em 29 de maio, quis saber o que fazer em casa diante de um fechamento de glote, e em 14 de junho perguntou a diferença entre Ozempic e Mounjaro. Em 19 de agosto, questionou se charuto engorda e, em 9 de outubro, a idade média de morte de pessoas muito altas.
Também houve consultas ligadas aos negócios. Em 23 de maio, enquanto negociava a venda de ativos pessoais, ele checou a cotação das ações da Hapvida, que ele detinha em 18.736.489 papéis ordinários. Em junho, enviou ao ChatGPT a imagem de um homem e pesquisou sobre xeiques de Dubai e Abu Dhabi, na época em que buscava possíveis parceiros para o Master. Em 14 de agosto, digitou apenas o próprio nome, e a ferramenta o descreveu como alguém conhecido por decisões ousadas, sem refletir a crise.
À medida que a situação do banco piorava, as perguntas ficaram mais sensíveis. Em 21 de agosto, Vorcaro quis saber quem eram os diretores do Banco Central, um dia depois de pedir uma audiência com o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, que não aconteceu. Em 30 de agosto, perguntou sobre os requisitos para pedir o impeachment de um diretor do BC, e no dia seguinte, quais banqueiros brasileiros já haviam sido presos.
Em 4 de outubro, pesquisou sobre Luís Octávio Índio da Costa, ex-banqueiro do Cruzeiro do Sul que ficou preso por 18 dias em 2012, e perguntou onde ele morava. O ChatGPT recusou fornecer endereço residencial, mas citou Cidreira, no Rio Grande do Sul, como local associado ao perfil dele no LinkedIn. O histórico traz ainda consultas sobre a Lei Magnitsky, em 14 de outubro, e sobre o volume diário das ações do BRB, em 22 de outubro.
Em paralelo, Vorcaro mantinha uma estratégia de comunicação para defender o Master. Entre agosto e setembro, trocou 228 mensagens com o lobista Thiago Miranda, que atuava junto ao diretor do BC Renato Gomes, e orientou Luiz Felipe Mourão, conhecido como Sicário, a produzir conteúdo positivo e derrubar links negativos quando a Câmara Legislativa do DF aprovou a compra do Master pelo BRB. Em 3 de setembro, o Banco Central vetou a operação.
Em 15 de novembro, dois dias antes da prisão, ele perguntou ao ChatGPT quem eram os juízes das varas criminais de Brasília. No mesmo dia, escreveu a seus advogados, no grupo de WhatsApp "Daniel e os Leões": "Na iminência da solução de tudo estou percebendo comportamentos estranhos". A última pesquisa, no fim da tarde de 16 de novembro, foi sobre as varas criminais federais de Brasília.
No dia da prisão, Vorcaro combinou a saída do país com um dos pilotos de seus jatos, mudando o horário de partida de 20h30 para meia-noite, apesar do alerta de que Guarulhos tinha restrições após as 23h. Às 22h27, já no aeroporto, escreveu que estava na porta e que não havia ninguém no portão. Pouco depois, foi preso pela PF.






